Divido com os amigos da coluna o texto de Fernão Lara Mesquita, exibido em vídeo no seu canal “O Vespeiro”. Fala Fernão!
Bom, a gente já sabe o que o Alexandre de Moraes e aqueles companheiros lá da comédia stand-up dele querem. Agora a gente precisava saber o que é que o Brasil quer. As respostas às convocações de manifestações pelos dois presidentes em pessoa dão uma boa indicação do que é que o Brasil quer.
Vão na mesma direção das medições de intenção de votos do Congresso Nacional, que é o Congresso Nacional dos representantes eleitos do povo brasileiro. E tem aquelas pesquisas que os jornais e as televisões estão sempre prontas para pôr no ar assim que acaba qualquer manifestação de multidões nas ruas, para dizer o contrário. Mas o Lula não acredita na genial quest, nem no data-folha.
O Supremo Tribunal Federal também não. E se sobrava qualquer dúvida, o Centrão, com sua insuperável sensibilidade para a direção do vento, também não acredita nelas. Aposta tudo no outro lado para a eleição de 2026, se tiver eleição.
É por isso que eleição com Bolsonaro nem pensar. Tudo menos isso. E nem mesmo aceitar indignações estrangeiras.
Não tinha aquelas máfias italianas de sequestradores que mandavam pedaços dos sequestrados, os dedos, orelhas e por aí, para os parentes que demorassem a pagar o resgate? Pois essa que tomou conta do Brasil vai na mesma linha. Não tem lei, nem regra, nem código penal. Se o Trump reagir, nós trancamos ele citogenário e doente numa pocilga da papuda.
Quer dizer, o Bolsonaro virou uma espécie de refém de sequestradores que exigem como resgate a entrega do poder para a esquerda a revelia do eleitorado. Tudo menos disputa no voto direto e reto e sem butreta. Isso aqui é um espetáculo em que não se admite participação da plateia.
O povo é tchau. Anistia, talvez. Por enquanto eles até cogitam em soltar os outros inocentes todos se ele entregar a elegibilidade de mão beijada.
Mas por garantia, para que continue tendo a vir do golpe, não soltam nem ele, nem quem tenha feito reuniões com ele, mesmo sendo funcionário do governo dele, ou falado no telefone com ele, ou mesmo quem tenha sido mencionado por quem falou no telefone com ele de 2019 em diante. E isso é só por enquanto, gente. Nós somos o enésimo país do mundo a não acreditar que aquilo que a outra metade do mundo sofre na pele possa estar acontecendo conosco.
Mas tá. A briga do Lula com o Trump, para além da exploração eleitoreira, é coisa de ciúme e estuprador. Não, esse escuso aqui tem dono.
Esse povo, só eu aqui, carco. E depois, as punições do Trump não são mais que o consolo de um brasileiro ver a impunidade dos donos do poder ser interrompida uma vez na vida, fora do cinema, nem que seja só marginalmente. Esse é o único efeito prático delas.
Só os brasileiros podem livrar os brasileiros dessa enrascada. O Lula, gente, não acredita em nada senão no poder. Dos intelectuais e dos artistas brasileiros, ele só quer saber quanto tá o quilo.
E do eleitorado, então, ele quer saber o preço por milheiro. E a ilusão de todos os críticos, até os mais severos, é a respeito de até onde esses caras estão dispostos a ir para não pagarem pelos crimes que eles estão cometendo. E o padrão anunciado e reconfirmado todos os dias é o da China, a maior barra pesada do planeta.
O Supremo Tribunal Federal não vai parar por aí. Ele já tá ameaçando prender até quem comemora a revolta do Nepal. E isso é da essência desses processos.
O Putin e a ditadura brasileira só vão parar se e quando eles forem detidos. O Brasil é o seguinte, se deu certo na Ucrânia e o mundo encolheu, por que não a Polônia e a Romênia? E aqui, se bastou bater o pé que todo mundo encolhe, a gente fica dono do Brasil, por que a gente haveria de recuar? O impulso de oprimir, gente, é inerente à espécie humana, e como em todas as demais características humanas, também para o poder e para a opressão, vai haver sempre os hipervocacionados. O poder é a droga que mais vicia, e liberdade é um luxo que custa caro e cobra seu preço em sangue.
Só se consegue com muita coragem e perseverança. A força do apelo diabólico do poder está sempre presente e pressionando. Ocupa cada centímetro de recuo que a fronteira da liberdade der.
Gente, olha pra trás, o absolutismo monárquico se instalou no mundo quando a melhoria dos caminhos e dos armamentos permitiram que ela se instalasse. Assim que o alcance dos caminhos e das armas se tornou nacional, se instalaram os reizinhos de alcance nacional. E quando o alcance das armas e dos caminhos se tornou continental, lá vieram os lênins e os hitlers violando todas as fronteiras nacionais, e conter esses caras custou rios de sangue, e até hoje eles não pararam.
Os caminhos e os armamentos nunca foram melhores que os de hoje, o seu alcance agora é planetário, e a ditadura planetária com o centro do papado na China é aquela em que o Lula está postando todas as fichas dele. A amnistia é o primeiro passo, pois o que não existe mais instituição nenhuma em pé nesse país, se não esse congresso cambaleante aí. Mas não é só a amnistia que vai devolver a paz para o Brasil.
A menos que se atenda a condição que eu vivo repetindo aqui, que o Edward Coke impôs ao rei lá naquela Inglaterra do longínquo, 1605, ou a justiça passa a ser prestada pela reconstituição fiel da verdade dos fatos, como fez o Louis Fuchs, por testemunhas isentas e pelo julgamento por um júri popular e não por um juiz nomeado pelo rei, jamais haverá paz. E o nosso problema começa por um sistema eleitoral que simplesmente não permite a reconstituição da verdade dos fatos. Sem isso, o resto, com mais ou menos compostura, vira briga de bandido.
O Brasil vai ter que reinventar de alto a baixo se sair dessa enrascada. E para isso, só tem uma fórmula que deu certo, que é inverter o jogo e botar o povo determinando o que o governo pode ou não pode fazer e que leis ele topa ou não impor a si mesmo. E é isso que se chama democracia.
Impor uma anistia, porque assim a maioria eleita quer, é o que vai dar a sentença de vida ou de morte para o Congresso, e de possibilidade ou não de reconstrução da democracia brasileira num prazo previsível. É agora ou nunca, gente.
Fernão Lara Mesquita é Jornalista e ex-editor da página de opinião de O Estado de S. Paulo. E fundador do site VESPEIRO, que ele administra.