Um dia antes de se aposentar, o ministro Luís Roberto Barroso pediu uma sessão virtual para registrar seu voto a favor da descriminalização do aborto até 12 semanas de gestação. A ex-ministra Rosa Weber fez a mesma coisa. Ainda bem, foram os últimos votos destas autoridades que se despediram sem deixar saudades. O filósofo Francisco Razzo se manifestou iluminando a escuridão deste voto.
Segundo ele: a forma do voto já revela sua natureza: uma sessão virtual extraordinária, convocada às vésperas da aposentadoria. A decisão mais grave sobre a vida humana entra na pauta como despacho burocrático. O voto, breve e polido, é a imagem da racionalidade moderna em seu estágio mais avançado: limpa, eficiente, asséptica. Além de magistrado, Barroso é a personificação da lógica administrativa aplicada ao que há de mais decisivo na condição humana.
Francisco Razzo segue a análise sobrepondo o direito à vida do bebê no ventre de sua mãe. O filósofo lembra que; não se trata de demonizar o ministro. Barroso não é um carrasco do imaginário criminal medieval. É pior: é o funcionário perfeito da modernidade. O que mais assusta em seu voto não é a crueldade, mas a indiferença. Nenhuma frase soa violenta; todas soam razoáveis. O resultado, contudo, é devastador. O embrião não fala, não vota, não comparece – porém, é ele quem sofre a consequência irreversível da decisão. A neutralidade que se apresenta como progresso é, no fundo, anestesia da consciência.
Senhores; na semana passada Barroso embarcou rumo a um retiro espiritual no exterior que deve durar uma semana. Ele pretende ficar desconectado e não dar detalhes sobre a viagem. Barroso não vai mais votar. Seu último voto confirmou apenas a imagem madura de uma civilização que caminha serenamente em direção ao precipício.
Vicente Lino.
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