Não há confiança quando as instituições falham miseravelmente com o seu dever. A revista Veja divulgou áudios e documentos do banqueiro Daniel Vorcaro implicando diretamente o presidente Lula. A reportagem menciona repasses financeiros em espécie estimados em R$ 30 milhões para o Instituto Lula e para a produção de um documentário sobre o presidente. Esse montante funcionaria como um verdadeiro "pedágio" para obter facilidades no acesso a fundos de pensão de empresas estatais.Com a exibição de prints e vídeos, o material traz um conteúdo explosivo que merece, no mínimo, ser devidamente apurado.
Os desatinos começam quando a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal rechaçam os termos da reportagem, afirmando que não houve entrega de provas sobre o suposto financiamento do filme. Ora, o que se espera dessas instituições é que, no mínimo, investiguem aquilo que a imprensa levantou. Afinal, o papel do jornalismo investigativo é apurar e divulgar — e, neste caso, o fez acompanhado de provas materiais. A partir daí, cabe exclusivamente aos órgãos de Estado, legalmente autorizados, instaurar o processo investigativo.
A sociedade não pode acreditar em órgãos públicos que se recusam a abrir investigações em casos tão graves apenas porque as denúncias ocorrem no calor de uma disputa eleitoral. Vão esperar o resultado ou nunca vão investigar? Precisamos higienizar o Estado e livrá-lo de instituições que parecem ter sido capturadas por governos de ocasião. Continuamos atravessando um escaldante deserto onde falta água, sobra sol ardente e sobra também, desfaçatez das autoridades — tudo na vã esperança de que o cidadão não perceba o tamanho do descalabro. O Brasil que presta já conhece esse cenário e, ainda que momentaneamente impotente, haverá de se levantar para corrigir essas excrescências que tanto envergonham a nação.
Talvez o resultado das urnas mostre ao Procurador-Geral Paulo Gonet e à Polícia Federal que a força do voto é capaz de punir autoridades que se negam a cumprir, minimamente, o seu papel.
Vicente Lino