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NOTÍCIA

DIA INTERNACIONAL DA MULHER: ORIGEM DA DATA E OS DESAFIOS QUE AINDA PERSISTEM

Data: Sábado, 07/03/2026 10:25
Por: Metrô FM Juína
Foto tirada durante a caminhada Movimento Mulheres Vivas, em Juína.

No dia 8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Mas você sabe como essa data surgiu e qual é o seu verdadeiro significado?

Quando falamos sobre a origem da data, uma ideia bastante difundida é que o Dia Internacional da Mulher teria sido criado em homenagem às mais de cem mulheres que morreram no incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, ocorrido em 25 de março de 1911. Apesar de a tragédia ter marcado profundamente a história da luta trabalhista, a origem da data é anterior a esse episódio.

O Dia Internacional da Mulher está ligado a uma série de movimentos sociais e manifestações de trabalhadoras no final do século XIX e início do século XX. Naquele período, mulheres foram às ruas em diversos países para exigir melhores condições de trabalho, redução da jornada, salários mais justos e direito ao voto.

Em 1909, milhares de mulheres marcharam pela cidade de Nova York reivindicando esses direitos. No ano seguinte, o Partido Socialista da América instituiu o primeiro Dia Nacional da Mulher. A ideia de transformar a data em uma celebração internacional foi apresentada em 1910 pela ativista alemã Clara Zetkin, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague.

Apesar disso, o reconhecimento oficial da data pelas Nações Unidas ocorreu apenas décadas depois. A Organização das Nações Unidas (ONU) passou a celebrar o Dia Internacional da Mulher em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher.

“As mulheres tinham que trabalhar 16 horas por dia durante seis dias na semana. Elas eram vigiadas para ir ao banheiro e até fora do trabalho. Sofriam um conjunto de abusos e assédio sexual”, explica a doutora em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), professora e jornalista Isabelle Anchieta, autora da trilogia “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno”. Tudo isso para ganhar 33% a menos do que os homens – algo que ainda hoje se mantém.

Embora atualmente a data também tenha adquirido um caráter comercial, o 8 de março continua sendo um momento de reflexão sobre a luta histórica das mulheres por direitos, igualdade e respeito. A data também chama atenção para problemas que ainda afetam milhões de mulheres ao redor do mundo, especialmente a violência de gênero.

Segundo dados divulgados em 2025 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), quase uma em cada três mulheres no mundo — cerca de 840 milhões — já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. O levantamento mostra que esse número praticamente não mudou desde o ano 2000.

Feminicídio no Brasil

No Brasil, os dados também são preocupantes. Em 2025, foi registrado o maior número de feminicídios da última década. Ao todo, 1.568 mulheres foram assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.492 casos.

Os números fazem parte de um levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A série histórica, iniciada em 2015 — ano em que o feminicídio foi incluído no Código Penal brasileiro — mostra uma escalada persistente. Naquele ano foram registrados 449 casos. Em 2016, o número praticamente dobrou, chegando a 929 vítimas. Desde então os registros continuaram crescendo: 1.075 em 2017; 1.229 em 2018; 1.330 em 2019; e 1.354 em 2020.

Violência íntima e doméstica

A análise de 5.729 casos entre 2021 e 2024 revela um padrão recorrente nos feminicídios registrados no país:

- 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro;

- 21,3% pelo ex-companheiro;

- 10,2% por outros familiares;

- Apenas 4,9% dos autores eram desconhecidos da vítima.

- Em 97,3% dos casos, o agressor era homem.

O levantamento também mostra que a maior parte dos crimes ocorre dentro de casa. A residência da vítima foi o local do crime em 66,3% das ocorrências, seguida pela via pública, com 19,2%.

Quanto aos meios utilizados:

- 48,7% dos casos envolveram arma branca;

- 25,2%, arma de fogo.

Os dados reforçam que o feminicídio, na maioria das vezes, ocorre dentro do ambiente doméstico e no contexto de relações íntimas.

Mato Grosso lidera taxas proporcionais

Quando analisados os estados brasileiros, Mato Grosso registrou pelo segundo ano consecutivo a maior taxa proporcional de feminicídios do país em 2024, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados em julho de 2025.

Após Mato Grosso, os estados com maiores taxas são Mato Grosso do Sul (2,4%), Piauí (2,3%) e Roraima (2,0%).

Na outra ponta do ranking aparecem Amapá (0,5%), Sergipe (0,8%) e Ceará (0,9%), com os menores índices.

Vale lembrar que, no Brasil, a segurança pública é dever do Estado, mas responsabilidade de todos, conforme estabelece o artigo 144 da Constituição Federal. A gestão é compartilhada entre União, estados e municípios.

Misoginia e movimentos digitais

Especialistas também apontam o crescimento de movimentos misóginos na internet, que contribuem para a naturalização da violência contra mulheres.

Um exemplo é o chamado movimento Redpill. O termo surgiu na internet por volta de 2010 e faz referência ao filme Matrix (1999), no qual o personagem principal precisa escolher entre duas pílulas: a azul, que mantém a ilusão, e a vermelha, que revelaria a “realidade”.

Nessas comunidades online, a ideia da “pílula vermelha” é reinterpretada como um suposto despertar masculino. Dentro dessa lógica, alguns grupos passam a defender uma visão extremada de masculinidade e retratam mulheres de forma estereotipada, muitas vezes como manipuladoras, interesseiras ou inferiores.

Quando esse tipo de visão se dissemina, especialistas alertam que pode surgir um ambiente cultural que facilita a normalização da violência, do abuso e da desumanização das mulheres.

É importante ressaltar que nem todo homem que entra em contato com esse tipo de conteúdo se torna violento. No entanto, a disseminação dessas ideias pode alimentar sentimentos de raiva, frustração e ressentimento que, em alguns casos, acabam direcionados contra as mulheres.

Denunciar salva vidas

Denunciar a violência é fundamental para interromper ciclos de agressão, responsabilizar agressores e proteger outras possíveis vítimas.

No Brasil, mulheres em situação de violência podem buscar ajuda pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. O serviço, criado pela Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e oferece escuta qualificada, orientação e encaminhamento das denúncias aos órgãos responsáveis.

A denúncia pode ser feita de forma anônima e a ligação é gratuita.

Mais do que uma data comemorativa, o 8 de março continua sendo um momento de reflexão sobre igualdade, direitos e respeito — e sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados para garantir uma sociedade mais justa para todas as mulheres.