Candidato do Missão criticou avanço de Augusto Cury nas pesquisas e afirmou que eleitorado busca alternativas fora da polarização; horas após entrevista, decisão de Dias Toffoli suspendeu propaganda e participação de Renan em debates
O candidato à Presidência da República pelo partido Missão, Renan Santos, afirmou que o Brasil vive atualmente um cenário de “forte despolitização” e classificou como “inorgânico” o crescimento de Augusto Cury, do Avante, nas pesquisas eleitorais.
A declaração foi dada em entrevista ao Estadão nesta segunda-feira (31), dentro da série de entrevistas com os candidatos à Presidência. Renan questionou a consistência do avanço de Cury e afirmou que o candidato, que não possui experiência anterior em cargos políticos, poderia perder força à medida que a campanha avançasse e aumentassem os debates e as sabatinas.
A avaliação ocorre justamente após Cury registrar um crescimento expressivo nas pesquisas. No levantamento BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira, o escritor e psiquiatra passou de 2% para 11% das intenções de voto, avançando nove pontos percentuais e assumindo a terceira colocação. Lula aparece com 37% e Flávio Bolsonaro com 31%.
O avanço de Augusto Cury tornou-se um dos principais assuntos da corrida presidencial nos últimos dias.
Além do desempenho nas pesquisas, o candidato registrou forte crescimento nas redes sociais. Segundo levantamento divulgado pela imprensa, Cury ganhou mais de 2 milhões de seguidores em apenas uma semana, ampliando rapidamente sua presença no ambiente digital.
Cury atribui o resultado ao crescimento espontâneo de sua candidatura e nega ter utilizado robôs ou contratos com influenciadores para impulsionar artificialmente sua presença nas redes. O candidato afirma que investiu cerca de R$ 50 mil em publicidade digital e que o aumento de seguidores seria resultado do interesse dos eleitores por sua proposta.
Renan Santos, porém, apresenta uma interpretação diferente. Para ele, o crescimento de Cury estaria relacionado à despolitização de parte do eleitorado e à procura por uma alternativa aos nomes tradicionais da política.
A ascensão de Cury também altera a disputa entre os candidatos que tentam se apresentar como alternativas à polarização entre Lula e o campo ligado ao bolsonarismo.
Renan Santos, Ronaldo Caiado e outros candidatos passaram a disputar um eleitorado que busca se afastar dos dois principais polos da eleição.
Cury, por sua vez, vem se apresentando como uma alternativa de conciliação, defendendo a união de diferentes correntes políticas. O candidato afirma que pretende construir uma proposta que dialogue tanto com setores da direita quanto da esquerda.
Para analistas, ainda é cedo para saber se o crescimento será sustentado. O fato de Cury não possuir experiência eleitoral anterior também é apontado como um fator que poderá ser testado durante a campanha, especialmente em entrevistas, debates e confrontos diretos com outros candidatos.
Poucas horas depois da entrevista, a campanha de Renan Santos sofreu um importante revés judicial.
O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a suspensão da propaganda digital da campanha e também impediu, de forma provisória, a participação do candidato em debates e entrevistas, além de suspender o recebimento de recursos do Fundo Eleitoral.
A decisão está relacionada ao registro das redes sociais utilizadas pela campanha. Segundo a decisão, 16 perfis teriam sido omitidos no momento do registro da candidatura, incluindo um perfil com cerca de 2,4 milhões de seguidores. Para Toffoli, a situação poderia representar quebra de isonomia entre os candidatos e possível irregularidade eleitoral.
A defesa de Renan Santos contesta a decisão e afirma que houve um erro no sistema utilizado para o registro. A equipe jurídica pretende recorrer da determinação.
A decisão representa um problema significativo para Renan porque sua campanha tem forte dependência da comunicação digital.
O candidato construiu parte de sua trajetória política justamente utilizando redes sociais e estratégias de comunicação voltadas ao público da direita. Com a restrição, sua capacidade de alcançar novos eleitores pode ser reduzida.
Analistas avaliam que a medida também pode provocar efeitos indiretos na disputa pelo eleitorado de direita, principalmente porque Flávio Bolsonaro e Renan Santos disputam parte semelhante do eleitorado.
O cenário eleitoral brasileiro passa, portanto, por uma fase de rápidas mudanças.
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro continuam liderando as pesquisas, Augusto Cury aparece como uma nova força capaz de alterar a distribuição dos votos no primeiro turno. Ao mesmo tempo, candidatos como Renan Santos enfrentam desafios para consolidar suas campanhas.
Na avaliação de Renan, entretanto, o crescimento de Cury ainda precisa ser testado fora das redes sociais e das pesquisas. O candidato do Missão aposta que debates, entrevistas e a exposição das propostas poderão mostrar se o fenômeno representa uma tendência permanente ou apenas uma onda momentânea.
Com pouco mais de um mês para o primeiro turno, a disputa começa a ganhar novos contornos — e o desempenho dos candidatos que ocupam o espaço entre os dois principais polos poderá ser decisivo para definir quem avançará à segunda etapa da eleição.
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