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NOTÍCIA

PÓ DE BRITA NO LUGAR DE CASSITERITA: COMO FRAUDE LEVOU PF A DESCOBRIR ESQUEMA E ELO COM ALEXANDRE PIRES

Data: Quinta-feira, 24/09/2026 11:16
Por: g1 RR e Rede Amazônica

Uma carga de pó de brita enviada a uma empresa estrangeira no lugar de cassiterita, em 2023, fez com que a Polícia Federal descobrisse um esquema de milionário de lavagem de dinheiro com a venda de minério extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A investigação tem como um dos alvos o cantor Alexandre Pires e dois irmãos empresários. Eles foram alvos da segunda fase da operação Disco de Ouro II, deflagrada nesta quarta-feira (23).

Segundo a investigação, Alexandre Pires e uma empresa dele, produtora musical, receberam R$ 31 milhões de empresas apontadas como parte da organização criminosa. O cantor e a empresa são suspeitos de terem sido usados para fracionar, ocultar e dissimular valores obtidos com a fraude.

Também foram alvos os irmãos Diego Possebon, apontado como principal articulador do esquema, e Matheus Possebon, que era empresário de Alexandre à época.

O cantor nega participação.

Entenda: A cassiterita, também conhecida como "ouro negro", é o principal minério utilizado na produção de estanho, metal empregado na fabricação de diversos produtos, como latas de alimentos, peças automotivas, vidros e equipamentos eletrônicos, incluindo celulares. Por ter alto valor de mercado e grande demanda da indústria, ela é frequentemente alvo de exploração ilegal.

Operação Disco de Ouro II mira esquema de lavagem de dinheiro com venda de cassiterira na Terra Yanomam, em Roraima — Foto: Arte g1

Empresa suíça comprou cassiterita e recebeu pó de brita
As investigações da PF começaram após uma empresa suíça de comércio de metais apresentar uma notícia-crime, um pedido de investigação. A empresa denunciou que o grupo, liderado por Diego Possebon, vendeu pó de brita como se fosse cassiterita e causou prejuízo estimado em US$ 48 milhões (cerca de R$ 247 milhões na cotação atual).

A brita, ao contrário da cassiterita, não é um minério. Trata-se de uma rocha, como o granito, que é usada na construção civil, e tem um valor bem abaixo que o do "ouro negro".

A empresa suíça contratou, em 2021, uma empresa norte-americana para intermediar a compra de cassiterita. Segundo a investigação, a suspeita é de que a intermediadora comercial já conhecia o mercado de mineração no Brasil e atuava no setor em parceria com Diego.

Por intermédio de Diego, a empresa norte-americana passou a adquirir cassiterita da mineradora Betser, de Christian Costa dos Santos, apontado como um dos líderes do grupo investigado.

A Betser tinha licença para extrair minério em Itaituba, no Pará. A PF identificou que a autorização era usada para dar aparência de legalidade ao minério extraído ilegalmente da Terra Yanomami, em Roraima.

Fraude no envio de minérios
Em fevereiro de 2022, a PF apreendeu mais de 100 toneladas de cassiterita na sede e no depósito de uma filial da Betser, em Rorama, durante uma operação.

Após a apreensão do minério, segundo a investigação, o grupo ficou sem a cassiterita necessária para cumprir o contrato com a empresa suíça. Por isso, enviou pó de brita no lugar do minério para receber o pagamento antecipado da carga.

Em abril de 2023, a empresa suíça enviou um representante ao Brasil para inspecionar a operação. Ele visitou os armazéns da empresa responsável por guardar os minérios em Manaus (AM), e acompanhou o carregamento dos contêineres que seriam enviados. Diego Possebon e Christian Costa também estavam no local.

Segundo a investigação, Diego e Christian simularam nos armazéns o empacotamento do minério. Para que os embarques ocorressem, eles emitiram laudos de inspeção e testes químicos falsificados que indicavam que a suposta cassiteria tinha até 75% de estanho.

Cassiterita, minério também conhecido como 'ouro negro'.  — Foto: PRF/Divulgação/Arquivo